Programa de Ãndio
Pancararus mantêm vivas suas tradições na Favela Real Parque praticando a dança toré
Por Rosane Aubin / Fotos MarÃlia Pedroso

Crianças da Real Parque assistem à dança do toré: o ritual é uma afirmação da identidade e virou espetáculo
A menina de pouco mais de 2 anos faz beicinho e diz: “Estou com medo dos praiásâ€. Tia LÃdia, a agente de saúde Maria LÃdia da Silva, que segura a garota vestida de cor-de-rosa dos pés à cabeça, explica que ela não precisa ficar assustada com os homens que dançam e cantam com uma vestimenta ritual. “Está vendo por que precisamos praticar a dança do toré? Senão, essas pessoinhas vão esquecer suas origens, pensar que são da cidade grandeâ€, afirma LÃdia. Estávamos em um pátio interno entre edifÃcios do projeto Cingapura na comunidade Real Parque, uma área coalhada de barracos e espremida entre a Marginal Pinheiros e condomÃnios de luxo do bairro do Morumbi. Era um domingo, e cinco Ãndios pancararus que moram no local realizavam uma dança vestidos com os sagrados “praiásâ€, confeccionadas de acordo com as tradições na aldeia de Brejo dos Padres, em Pernambuco, de onde vieram os Ãndios que moram por ali. A indumentária, confeccionada com uma palha semelhante ao sisal, esconde totalmente a pessoa que a veste, e só tem dois pequenos buracos na área dos olhos.
Essa roupa tem um significado muito especial para os pancararus: quando é usada numa cerimônia, ela representa os encantados, entidades que, segundo sua crença, zelam pelo bem-estar dos Ãndios da tribo. Antes de trazer a roupa a São Paulo, os moradores da Real Parque tiveram de fazer uma longa negociação com os lÃderes, em Pernambuco. Em sua maioria, os 603 Ãndios de 120 famÃlias que moram de forma permanente na comunidade do Real Parque têm um pé lá e outro cá. “Nós procuramos manter sempre a ligação entre a aldeia e a cidade. Meu filho Ãtalo, de 13 anos, que foi criado aqui sempre convivendo com meu pai e minha mãe, agora quer ir morar lá, porque meus pais se mudaram para Pernambucoâ€, diz Maria das Dores da Conceição Pereira do Prado, de 36 anos, a Dora Pankararu. Ela é mãe também de Ingrid, de 11 anos; nasceu na aldeia e vive aqui há 26 anos, pensando no que pode acontecer amanhã:“Vou acabar ficando sozinha aqui…â€
Ela herdou de seu pai, Manoel Alexandre Sobrinho, que se aposentou em São Paulo, em 2010, a liderança de sua tribo urbana. É presidente da Associação SOS Comunidade IndÃgena Pankararu, criada em 1994. Sua sede existe hoje em um terreno desapropriado para a construção de apartamentos, mas pretende ganhar espaço fixo em uma área no projeto de reurbanização da favela. Durante a entrevista, na Rua Paulo Bourroul, foi abordada por moradores pedindo ajuda, deu instruções sobre um processo jurÃdico, avisou a uma mãe que ela deveria levar seu bebê segunda-feira ao posto de saúde para a pesagem e analisou com objetividade a situação dos Ãndios na capital. Pedagoga, ela trabalha na Casa de Apoio à Saúde do Ãndio, que dá suporte a indÃgenas doentes que vêm de várias regiões do paÃs fazer tratamento em São Paulo.
Dora foi nossa anfitriã na visita e organizou a dança do toré, que, logo percebemos, era um acontecimento na comunidade Real Parque. Mais de uma centena de crianças estavam sentadas em volta do terreiro. Logo que começou o ritual, toda a vizinhança dos cinco prédios apareceu na janela dos apartamentos: nenhuma ficou vaga.
Primeiro a reza, depois o médico
LÃdia é agente de saúde e vice-presidente da associação. Tem 44 anos e veio para São Paulo há 14 porque, na aldeia, não conseguia sustentar os cinco filhos. Trabalhou durante sete anos como auxiliar de limpeza em uma grande empresa na Marginal Pinheiros. Com o dinheiro da rescisão comprou por 13.000 reais o barraco de cinco cômodos – com uma área para lavanderia, uma sala grande e dois quartos – em que mora. Ela só reclama de não ter espaço para cultivar plantas, e dos dias de chuva: “Quando chove, parece que estou na ruaâ€. É chamada de Tia LÃdia por todos e tem o papel de uma espécie de pajé para esta comunidade indÃgena. “É difÃcil para eles acreditar no médico. Sempre querem primeiro passar por mim, para fazer a cura espiritual.†Desde criança, na aldeia, ela participava dos rituais com rezas e chás, um papel que é atribuÃdo apenas à queles que “nascem com o dom†de curar. “Faço pajelança, preparo chás, mando pedir ervas lá na aldeiaâ€, diz. Como funcionária do posto de saúde da região, ela aprendeu a importância de conhecer alguns sintomas e de encaminhar os problemas de saúde mais graves para os médicos.
Desistiu de ter uma horta no quintal do posto de saúde, onde plantava as ervas usadas pelos Ãndios, porque alguém comentou que ela poderia estar cultivando plantas que provocam aborto. “Se fosse verdade, os Ãndios não teriam tantos filhosâ€, afirma. LÃdia tem o cuidado de jamais usar tratamento dos Ãndios em outros moradores da favela. Ela sabe que a mistura de culturas pode causar problemas. “Metade dos Ãndios que moram na Real Parque tem hipertensão e obesidadeâ€, diz. Ela mesma fez dieta depois que aprendeu a importância de se alimentar bem.
“Quando criança, eu era feliz e não sabiaâ€, afirma. Na aldeia, comia o que sua mãe e avó preparavam, comidas à base de mandioca, milho, batata e peixe. “Pão era para ocasiões especiais. Quando ia à cidade com minha mãe para vender pinhas e mangas, via aquelas pessoas comendo massas, pastéis, doces e pensava: ‘Eles é que são felizes’. Hoje, vejo os Ãndios comendo hambúrguer e pastel e sei que isso não tem nada a ver com a gente.â€
Um delicado equilÃbrio
Na cidade, os indÃgenas ficam expostos a muitas situações com as quais não estão habituados a lidar. Segundo dados preliminares do Censo 2010, só na capital residem 12.977 pessoas que se declararam indÃgenas; no Estado, são 41.794; e no paÃs, 817.963. A rede de solidariedade que Dora, LÃdia, Manoel e vários outros criaram para receber e amparar os pancararus na Real Parque é essencial para que eles tenham os direitos básicos respeitados. A dança do toré tem grande importância na afirmação de sua identidade. “A gente aprende a ser aquilo que a gente é. O Ãndio aprende a ser Ãndio. Esses momentos especiais fazem com que eles exercitem esse aprendizado, é um ritual absolutamente fundamentalâ€, diz o historiador e antropólogo José MaurÃcio Arruti, que escreveu uma tese sobre os pancararus do Nordeste e é professor da PontifÃcia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
No caso dos pancararus, o ritual é ainda mais valioso. Eles foram uma espécie de guardiões dessa tradição. Em 1870, todos os integrantes de tribos do Nordeste perderam sua categoria jurÃdica de indÃgenas, porque estariam miscigenados com outras etnias. “Por volta de 1930, reivindicaram sua condição, mas não eram mais considerados os Ãndios que a etnologia clássica esperava encontrarâ€, diz Arruti. Aà entram os pancararus: como eles preservaram o ritual, passaram a ensinar outros grupos, ganhando importância polÃtica. Os encantados, que os dançarinos encarnam nos rituais, são entidades vivas que representam a vitória dos Ãndios sobre a morte. Eles zelam pelos Ãndios. “Eles não são o panteão dos gregos, não são um céu de anjos nem ancestrais mortos, são Ãndios reais que descobriram o segredo para não morrerâ€, afirma o antropólogo.
Como foram parar ali
O primeiro registro de pancararus à beira do Rio Pinheiros, na região em que está localizada a Real Parque, é de 1933. No começo, os Ãndios acampavam na área, que era de chácaras, com plantações de mandioca. Nos anos 1950, a migração intensificou-se e vários pancararus participaram da construção do Estádio do Morumbi como operários, ajudando a construir um dos marcos do bairro. “Temos registros, inclusive com carteiras profissionais dos Ãndiosâ€, diz Dora. O que expulsava os indÃgenas de suas aldeias era o conflito com os posseiros, além das parcas condições de sobrevivência. “Os mais antigos sofreram tanto com os conflitos que decidiram parar de falar nossa lÃngua, porque a dificuldade de se comunicar em português deixava nosso povo ainda mais fracoâ€, diz LÃdia. Hoje, eles lembram apenas de alguns nomes de objetos e situações cotidianas, mas a gramática de sua lÃngua se perdeu. Nos anos 1970, a migração aumentou, com homens e famÃlias que vinham ganhar dinheiro com o objetivo definido de voltar para o Brejo dos Padres. Hoje, afirma Dora, os que ficam têm como intuito ganhar dinheiro e voltar, tratar problemas de saúde ou estudar. Vários indÃgenas fazem curso universitário. O filho de Dora, já sabemos, quer voltar para a aldeia. Mas a filha, Ingrid, que dançava com os homens vestidos de praiás numa parte do ritual aberta à participação de todos, ainda não decidiu. Se ficar, carregará a tarefa de manter a vida eterna aos pancararus.












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