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Programa de índio

Redação 5 agosto 2011 Perfil 575 views ComentárioImprimir Imprimir Email This Post Email This Post

Pancararus mantêm vivas suas tradições na Favela Real Parque praticando a dança toré

Por Rosane Aubin / Fotos Marília Pedroso

 

Crianças da Real Parque assistem à dança do toré: o ritual é uma afirmação da identidade e virou espetáculo

 
A menina de pouco mais de 2 anos faz beicinho e diz: “Estou com medo dos praiásâ€. Tia Lídia, a agente de saúde Maria Lídia da Silva, que segura a garota vestida de cor-de-rosa dos pés à cabeça, explica que ela não precisa ficar assustada com os homens que dançam e cantam com uma vestimenta ritual. “Está vendo por que precisamos praticar a dança do toré? Senão, essas pessoinhas vão esquecer suas origens, pensar que são da cidade grandeâ€, afirma Lídia. Estávamos em um pátio interno entre edifícios do projeto Cingapura na comunidade Real Parque, uma área coalhada de barracos e espremida entre a Marginal Pinheiros e condomínios de luxo do bairro do Morumbi. Era um domingo, e cinco índios pancararus que moram no local realizavam uma dança vestidos com os sagrados “praiásâ€, confeccionadas de acordo com as tradições na aldeia de Brejo dos Padres, em Pernambuco, de onde vieram os índios que moram por ali. A indumentária, confeccionada com uma palha semelhante ao sisal, esconde totalmente a pessoa que a veste, e só tem dois pequenos buracos na área dos olhos.
Essa roupa tem um significado muito especial para os pancararus: quando é usada numa cerimônia, ela representa os encantados, entidades que, segundo sua crença, zelam pelo bem-estar dos índios da tribo. Antes de trazer a roupa a São Paulo, os moradores da Real Parque tiveram de fazer uma longa negociação com os líderes, em Pernambuco. Em sua maioria, os 603 índios de 120 famílias que moram de forma permanente na comunidade do Real Parque têm um pé lá e outro cá. “Nós procuramos manter sempre a ligação entre a aldeia e a cidade. Meu filho Ãtalo, de 13 anos, que foi criado aqui sempre convivendo com meu pai e minha mãe, agora quer ir morar lá, porque meus pais se mudaram para Pernambucoâ€, diz Maria das Dores da Conceição Pereira do Prado, de 36 anos, a Dora Pankararu. Ela é mãe também de Ingrid, de 11 anos; nasceu na aldeia e vive aqui há 26 anos, pensando no que pode acontecer amanhã:“Vou acabar ficando sozinha aqui…â€

 

As vestimentas, chamadas praiás, vieram da aldeia pancararú

 

Ela herdou de seu pai, Manoel Alexandre Sobrinho, que se aposentou em São Paulo, em 2010, a liderança de sua tribo urbana. É presidente da Associação SOS Comunidade Indígena Pankararu, criada em 1994. Sua sede existe hoje em um terreno desapropriado para a construção de apartamentos, mas pretende ganhar espaço fixo em uma área no projeto de reurbanização da favela. Durante a entrevista, na Rua Paulo Bourroul, foi abordada por moradores pedindo ajuda, deu instruções sobre um processo jurídico, avisou a uma mãe que ela deveria levar seu bebê segunda-feira ao posto de saúde para a pesagem e analisou com objetividade a situação dos índios na capital. Pedagoga, ela trabalha na Casa de Apoio à Saúde do Ãndio, que dá suporte a indígenas doentes que vêm de várias regiões do país fazer tratamento em São Paulo.
Dora foi nossa anfitriã na visita e organizou a dança do toré, que, logo percebemos, era um acontecimento na comunidade Real Parque. Mais de uma centena de crianças estavam sentadas em volta do terreiro. Logo que começou o ritual, toda a vizinhança dos cinco prédios apareceu na janela dos apartamentos: nenhuma ficou vaga.

 

 

Primeiro a reza, depois o médico
Lídia é agente de saúde e vice-presidente da associação. Tem 44 anos e veio para São Paulo há 14 porque, na aldeia, não conseguia sustentar os cinco filhos. Trabalhou durante sete anos como auxiliar de limpeza em uma grande empresa na Marginal Pinheiros. Com o dinheiro da rescisão comprou por 13.000 reais o barraco de cinco cômodos – com uma área para lavanderia, uma sala grande e dois quartos – em que mora. Ela só reclama de não ter espaço para cultivar plantas, e dos dias de chuva: “Quando chove, parece que estou na ruaâ€. É chamada de Tia Lídia por todos e tem o papel de uma espécie de pajé para esta comunidade indígena. “É difícil para eles acreditar no médico. Sempre querem primeiro passar por mim, para fazer a cura espiritual.†Desde criança, na aldeia, ela participava dos rituais com rezas e chás, um papel que é atribuído apenas àqueles que “nascem com o dom†de curar. “Faço pajelança, preparo chás, mando pedir ervas lá na aldeiaâ€, diz. Como funcionária do posto de saúde da região, ela aprendeu a importância de conhecer alguns sintomas e de encaminhar os problemas de saúde mais graves para os médicos.
Desistiu de ter uma horta no quintal do posto de saúde, onde plantava as ervas usadas pelos índios, porque alguém comentou que ela poderia estar cultivando plantas que provocam aborto. “Se fosse verdade, os índios não teriam tantos filhosâ€, afirma. Lídia tem o cuidado de jamais usar tratamento dos índios em outros moradores da favela. Ela sabe que a mistura de culturas pode causar problemas. “Metade dos índios que moram na Real Parque tem hipertensão e obesidadeâ€, diz. Ela mesma fez dieta depois que aprendeu a importância de se alimentar bem.
“Quando criança, eu era feliz e não sabiaâ€, afirma. Na aldeia, comia o que sua mãe e avó preparavam, comidas à base de mandioca, milho, batata e peixe. “Pão era para ocasiões especiais. Quando ia à cidade com minha mãe para vender pinhas e mangas, via aquelas pessoas comendo massas, pastéis, doces e pensava: ‘Eles é que são felizes’. Hoje, vejo os índios comendo hambúrguer e pastel e sei que isso não tem nada a ver com a gente.â€

 

 

Dora e Lídia, as guardiãs dos índios

 

 

Um delicado equilíbrio
Na cidade, os indígenas ficam expostos a muitas situações com as quais não estão habituados a lidar. Segundo dados preliminares do Censo 2010, só na capital residem 12.977 pessoas que se declararam indígenas; no Estado, são 41.794; e no país, 817.963. A rede de solidariedade que Dora, Lídia, Manoel e vários outros criaram para receber e amparar os pancararus na Real Parque é essencial para que eles tenham os direitos básicos respeitados. A dança do toré tem grande importância na afirmação de sua identidade. “A gente aprende a ser aquilo que a gente é. O índio aprende a ser índio. Esses momentos especiais fazem com que eles exercitem esse aprendizado, é um ritual absolutamente fundamentalâ€, diz o historiador e antropólogo José Maurício Arruti, que escreveu uma tese sobre os pancararus do Nordeste e é professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
No caso dos pancararus, o ritual é ainda mais valioso. Eles foram uma espécie de guardiões dessa tradição. Em 1870, todos os integrantes de tribos do Nordeste perderam sua categoria jurídica de indígenas, porque estariam miscigenados com outras etnias. “Por volta de 1930, reivindicaram sua condição, mas não eram mais considerados os índios que a etnologia clássica esperava encontrarâ€, diz Arruti. Aí entram os pancararus: como eles preservaram o ritual, passaram a ensinar outros grupos, ganhando importância política. Os encantados, que os dançarinos encarnam nos rituais, são entidades vivas que representam a vitória dos índios sobre a morte. Eles zelam pelos índios. “Eles não são o panteão dos gregos, não são um céu de anjos nem ancestrais mortos, são índios reais que descobriram o segredo para não morrerâ€, afirma o antropólogo.

 

 

Como foram parar ali
O primeiro registro de pancararus à beira do Rio Pinheiros, na região em que está localizada a Real Parque, é de 1933. No começo, os índios acampavam na área, que era de chácaras, com plantações de mandioca. Nos anos 1950, a migração intensificou-se e vários pancararus participaram da construção do Estádio do Morumbi como operários, ajudando a construir um dos marcos do bairro. “Temos registros, inclusive com carteiras profissionais dos índiosâ€, diz Dora. O que expulsava os indígenas de suas aldeias era o conflito com os posseiros, além das parcas condições de sobrevivência. “Os mais antigos sofreram tanto com os conflitos que decidiram parar de falar nossa língua, porque a dificuldade de se comunicar em português deixava nosso povo ainda mais fracoâ€, diz Lídia. Hoje, eles lembram apenas de alguns nomes de objetos e situações cotidianas, mas a gramática de sua língua se perdeu. Nos anos 1970, a migração aumentou, com homens e famílias que vinham ganhar dinheiro com o objetivo definido de voltar para o Brejo dos Padres. Hoje, afirma Dora, os que ficam têm como intuito ganhar dinheiro e voltar, tratar problemas de saúde ou estudar. Vários indígenas fazem curso universitário. O filho de Dora, já sabemos, quer voltar para a aldeia. Mas a filha, Ingrid, que dançava com os homens vestidos de praiás numa parte do ritual aberta à participação de todos, ainda não decidiu. Se ficar, carregará a tarefa de manter a vida eterna aos pancararus.

 

 

Mistura: as cintas da vestimenta mostram a interferência do catolicismo na cultura pancararu

 

 

 

 

Cantores e dançarinos posam com Dora

 

 


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