Um pedacinho do céu
Em vez de histórias fúnebres, os cemitérios-jardins do Morumbi se tornaram áreas para a contemplação e caminhadas diárias dos moradores da região
Por Ana Paula Kuntz / Fotos Ricardo D’Angelo
O gramado bem aparado vai até o horizonte, nas altas árvores repousam ninhos de dezenas de espécies de pássaros, e flores multicoloridas completam o cenário. Não se engane: estamos falando de um cemitério. Muito diferente do que habita o imaginário coletivo, em que paisagens fúnebres são tomadas por túmulos sinistros, imagens de anjos dramáticos e confusão de cruzes e lápides, os cemitérios-jardins têm jeitão de bosque. Na prática, por serem seguros e bonitos, tornaram-se parques onde os moradores da região vão para fazer caminhadas, exercÃcios e para a contemplação da natureza.
O conceito foi criado nos Estados Unidos pelos protestantes, que defendiam a igualdade entre os homens mesmo depois da morte. Assim, nada de uma famÃlia querer um mausoléu mais majestoso que a outra ou espaço para homenagens póstumas megalomanÃacas. Em um cemitério-jardim são permitidas apenas plaquetas de identificação e algumas flores ou pequenos enfeites sobre cada jazigo. E com ressalvas: fincar cataventos na terra, instalar casa para passarinhos e hospedar anões de jardim, como tentam alguns, é proibido. “Interfere no paisagismoâ€, diz Armando Magalhães, há 16 anos cumprindo o cargo de administrador do Cemitério da Paz, o primeiro cemitério-jardim do Brasil, integrante da Acempro. “Em respeito aos sentimentos dessas pessoas até deixamos esses acessórios um tempo lá, mas logo os retiramosâ€, diz.
Inaugurado em 1965, o cemitério foi concebido pelo engenheiro Flávio Magalhães, tendo como principal referência o Memorial Park, em Memphis, Estados Unidos. “Vi a capa do catálogo desse cemitério e reparei que não havia sepulturas de alvenaria. Achei muito interessante, pois com esse projeto eu poderia construir o cemitério e ao mesmo tempo plantar árvores, reflorestando o terrenoâ€, afirma. Hoje, a manutenção é feita por 12 jardineiros que cuidam das araucárias, das palmeiras e das árvores frutÃferas como jabuticabeira, abacateiro, pitangueira e mangueira, em torno de mais de 15.000 sepulturas e 35.000 sepultados.
Durante o horário de visitação (das 7 à s 18 h), há quem frequente o local mesmo sem ter a qual túmulo visitar. “Algumas pessoas vêm fazer caminhada, outras se sentam nos bancos das alamedas para ler. Usam o espaço como um parque mesmo, um lugar cheio de vidaâ€, diz Armando. Há também os curiosos que querem ver onde estão sepultadas as celebridades. No Cemitério da Paz, algumas delas são o compositor Adoniran Barbosa, o locutor de rádio Narciso Vernizzi (o “Homem do Tempoâ€), o ex-presidente Jânio Quadros, Valdemar Seyssel (o palhaço Arrelia), o músico Marcelo Fromer (dos Titãs), o jornalista Júlio de Mesquita Neto (do jornal O Estado de S.Paulo), o professor Paulo Freire e o jogador de futebol Leônidas da Silva (inventor da jogada conhecida como bicicleta).
Ali perto, a cantora Elis Regina, o polÃtico Orestes Quércia, o ator Ronald Golias, o apresentador Clodovil Hernandes e o piloto Ayrton Senna da Silva descansam no Cemitério do Morumbi, outra área florida, com área de 300.000 metros quadrados e ares de reserva verde. O bairro tem ainda um terceiro cemitério-jardim, o Gethsêmani, onde estão enterrados os polÃticos Franco Montoro e Celso Pitta, e a esposa do cantor Roberto Carlos, Maria Rita. Semanalmente, chegam vasos de orquÃdeas brancas que são colocadas sobre o seu jazigo que, mesmo sem identificação, é facilmente reconhecido. “Ela foi sepultada em um cemitério da Aclimação e dois meses depois trasladada para cáâ€, afirma o administrador Nilson de Almeida Oliveira.
Lidar com tietes e penetras em cortejos é, na verdade, a tarefa mais agitada do pedaço. Para isso, esses cemitérios criaram diretrizes de segurança e equipe de trabalho. “Enterros de celebridades são sempre tumultuados. Mas enterros de parentes de celebridades são ainda piores; os fãs invadem o cortejo sem respeitar o momento de dor da perda de seu Ãdoloâ€, diz. Para esses casos há salas para velórios privados e equipe treinada em reconhecer – e se necessário barrar – penetras desvairados.

Os canteiros e as regras da casa: flores e jardinagemsim; casas de passarinhos e outros enfeites, não!
De modo geral, porém, reina a calmaria. Das 6 à s 18 horas, no Gethsêmani, frequentadores passeiam entre 2.500 árvores e mais de 14.000 túmulos disfarçados com os gramados. O lugar é seguro, seja da ação dos vivos ou dos mortos. “O maior susto entre os funcionários daqui foi um passarinho fazendo sombra numa lumináriaâ€, diz o administrador. “Mas como não há esculturas, crucifixos nem monumentos, ninguém fica com medo de ver uma estátua se mexer, um vulto sair de trás de um túmulo e ouvir vozes do além. A verdade é que tanta calmaria, passarinhos e verde fazem a gente se sentir num pedacinho do céuâ€, diz ele.
Cemitério para turista ver
CEMENTERIO DE LA RECOLETA • Argentina
São quatro quarteirões de área pública, em Buenos Aires, com obras de arte esculpidas em bronze e mármore. É a necrópole mais luxuosa da América Latina e o passeio consta de diversos roteiros e guias de viagem. O túmulo mais visitado é o de Eva Perón.
CEMITÉRIO DO PÈRE LACHAISE • França
Paris é romântica até nos lugares mais improváveis. Passeios de mãos dadas, piqueniques e muitas fotos são comuns entre os túmulos de Jim Morrison, Allan Kardec, Balzac, La Fontaine, Molière, Sarah Bernhardt, Proust, Oscar Wilde, Danton, Edith Piaf, Irmãos Lumière, Isadora Duncan e Chopin.
SPOOKY CEMETERIES • Estados Unidos
Em Nova Orleans, as visitas guiadas levam a cenários de histórias de mortos vivos. São tours muito populares na cidade. Como o solo é muito encharcado, os caixões não podem ser enterrados, ficando em “casinhas†sobre o chão. O St. Louis #1 é o mais antigo da cidade, aberto em 1789. No Cemitério Lafayette foram filmadas cenas do filme Entrevista com Vampiro. E pelas ruas do French Quarter se tomam conhecimento de hitórias de fantasmas e de espÃritos “residentesâ€.










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